segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O mistério da vida útil de uma IPA

Cerveja velha tem que beber logo. Essas já eram!




Depois de fazer uma comparação informal entre uma IPA americana vencida ( a Sixpoint Bengali Tiger em lata) e algumas IPAs nacionais mais frescas (e preferir a vencida), quis saber um pouco mais sobre a vida útil da cerveja americana.

Escrevi um email para a cervejaria elogiando as cervejas e perguntando qual era a idade da cerveja que havia tomado. Esperei uma semana sem resposta, até que resolvi cobrar pela resposta via twitter. Funcionou! Consegui um pouco da atenção do Shane C. Walsh, presidente da Sixpoint Brewery. A princípio ele não quis responder a minha simples pergunta, mas com um pouco de insistência, ele me deu uma meia resposta. Achei melhor me satisfazer com isso e parar de importuná-lo.

Segundo Mr. Welsh, as cervejas enviadas pela Sixpoint ao Brasil são pasteurizadas antes do embarque, exceto a Resin. Ele também disse que as cervejas da Sixpoint tem entre 90 e 270 dias de vida útil, sem especificar qual é qual. De toda forma, seria cronologicamente impossível que as cervejas Sixpoint à venda no Brasil tenham apenas 90 dias entre o engarrafamento e o limite da validade.

Essa minha tentativa de obter uma informação básica sobre o produto da cervejaria demonstrou o resguardo que eles têm com uma informação que pode implicar na qualidade do produto. Eu entendo que essa pouca vontade de esclarecer abertamente um consumidor curioso é sinal claro da falta de transparência. Esse tipo de situação sempre me deixa com uma sensação de "tem coisa aí".

Abaixo segue a transcrição completa da pequena troca de mensagem que tive com chefe da cervejaria Sixpoint:



From: Fernando M Pacheco
Date: 28 de janeiro de 2013 09:23:00 BRST
To: "info@sixpoint.com"
Subject: Bengali Tiger life span

Hi,

Last week I bought a case of Bengali Tiger and a 4-pack of Resin in São Paulo, Brazil on a great discount. The beer expiration date is 1/29/2013 and although the beer is far from fresh it's still good beer. When compared to Brazilian IPAs it's still a fine IPA and I'm pleased by the price I've paid.

Now I'm really interested in comparing american IPAs avaliable in Brazil with the local IPAs. My question is: what is this Bengali's life span, or when was this batch brewed?

Thank you and keep up the great work.

Fernando M Pacheco

mostocritico.blogspot.com.br




From: "Shane C. Welch"
Date: 4 de fevereiro de 2013 12:58:55 BRST
To: Fernando M Pacheco
Subject: Re: Bengali Tiger life span

Hi Fernando -

We are happy to hear that your experience with our "out of code" beers in Brazil was still good.  That being said, in order for you to have a true comparison, we suggest that you try sampling "fresh" Sixpoint beers if you are going to compare and blog about it.

We have a fresh shipment going to Brazil very soon.  Should we alert you when it arrives?

cheers,

☮ ☮ ☮ ☮ ☮ ☮ 
Shane C. Welch
President
Sixpoint - Brooklyn - NYC 11231





From: Fernando M Pacheco
Date: 4 de fevereiro de 2013 14:22:58 BRST
To: "Shane C. Welch"
Subject: Re: Bengali Tiger life span

Hi Shane,

I have tried fresher Sixpoint beers before (Righteous, Bengali and Resin) and it was all good.

I think it's great that you label all your beer with a "best before" date, since dry-hopped beer are better when drunk fresh. But I'm still curious about its canning date. Can you tell me how old these beers are?

This information can help me evaluate how american canned beer can hold on  to Brazil's climate and distribution system, in comparison to brazilian "american style" beers.

Thank you!

Fernando M Pacheco

mostocritico.blogspot.com.br




From: "Shane C. Welch"
Date: 4 de fevereiro de 2013 14:25:20 BRST
To: Fernando M Pacheco 
Subject: Re: Bengali Tiger life span


Fernando -

Some of our beers are canned with as little as 90 days of code dating, while others have as many as 270.

All of the beers we send to Brazil, except for the Resin, have been pasteurized prior to packaging.

cheers

☮ ☮ ☮ ☮ ☮ ☮ 
Shane C. Welch
President
Sixpoint - Brooklyn - NYC 11231


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Muita cerveja importada, pouco chope local


Feliz 2013


Passados 14 meses desde que iniciei este blog, aproveitei a virada de ano para refletir sobre minhas ideias e sentimentos como consumidor de boas cervejas e sobre tudo que já escrevi por aqui, no twitter e em outras redes. Acaba sendo irresistível também dar continuidade a alguns temas que surgiram na enquete Melhores de 2012, do Blog do Bob.

A oferta de boas cervejas brasileiras no mercado paulistano cresceu a passos bem lentos em 2012. Talvez essa percepção seja devido ao fato do mercado de cervejas importadas ter crescido em ritmo muito maior, mas de toda forma, para quem quer novidades locais, foi decepcionante. Alguns lançamentos barulhentos de cervejas high-end, podem ter dado a impressão que o ano tenha sido promissor, mas para o meu consumo do dia-a-dia, em termos de cervejas brasileiras, quase nada mudou. No máximo incorporei as cervejas da Way Beer no meu portfólio pessoal, mas nem sempre estão disponíveis e nem o preço entusiasma tanto.

Falando nisso, esse deve ser o maior motivo da minha falta de empolgação com as boas cervejas nacionais, a falta de competitividade com as importadas. Sempre me pareceu óbvio que as vantagens de consumir as cervejas locais (ou pelo menos domésticas) seriam o preço e o frescor, mas infelizmente em nenhum dos dois critérios elas têm superado a concorrência internacional. Sejam cervejas de estilos alemães, belgas ou americanos sempre encontro boas opções importadas com preços mais interessantes que as similares nacionais. Mas e o frescor? Acabo reconhecendo que, mesmo vindo chacoalhando em um navio desde o hemisfério norte, muitas vezes as cervejas importadas estão em estado de conservação similar as nacionais. Talvez nem seja exatamente isso, talvez, mesmo tendo perdido parte de suas qualidades, muitas cervejas importadas ainda estejam em pé de igualdade com as nacionais.

Veja as IPAs, por exemplo: no último fim de semana fiz um pequeno teste. Tomei três nacionais na sequência (Três Lobos, Karavelle e Colorado) e depois uma americana (Sixpoint). As nacionais tinham alguns poucos meses de garrafa e a americana, prestes a vencer. Se a americana já não era a mesma de meses atrás, ela ainda assim foi a experiência mais agradável, com mais drinkability e algum resquício de aroma cítrico. Nas nacionais prevaleceram dulçor e amanteigado, com um amargor no final para justificar a alcunha de IPA. Tá certo que a Sixpoint é em lata e isso pode ter ajudado na conservação, afinal também tem muita IPA americana a venda por aqui, que mesmo dentro da validade, parece mais com água de bateria. Mesmo assim, é decepcionante admitir que a IPA mais velha e viajada ainda seja melhor.

Deve ser mais fácil ser otimista bebendo cerveja no Brooklyn
Logo me vem a cabeça o post "Cerveja viva ou morta?". Esse post repercutiu muito na época, muitos criticaram, mas poucos disseram abertamente o motivo pelo qual as cervejas importadas são mais resistentes que as brasileiras. Muitas cervejas importadas não são pasteurizadas nem micro-filtradas, não ficam sob refrigeração todo o tempo e mesmo assim permanecem boas por tanto ou mais tempo que as nacionais pasteurizadas. Tem até quem duvide da honestidade das cervejarias estrangeiras, que afirmam não pasteurizar suas cervejas. Isso eu não sei, mas também não duvido...

E que dizer de bom do mercado paulistano de bons chopes brasileiros? Quase nada! Outro dia fiquei feliz por ter entrado em um novo bar perto de casa que tinha chope Dama IPA em sua única torneira. É com isso que tenho que me contentar, enquanto fico babando com a oferta de chopes em bares de Porto Alegre. A diferença é tanta que, no dia que o Bob publicou meu voto nos Melhores de 2012, teve dono de bar gaúcho que soberbamente desqualificou o meu voto para Melhor Bar: "Nem chope tem!". Nem só de torneiras se faz um bom bar, mas se lá no sul dá certo, qual é a dificuldade aqui em São Paulo então? Será que em São Paulo há menos aceitação do público ou os comerciantes que são mais conservadores? Arrisco dizer que é a segunda opção. Mas também tenho a impressão que mesmo os bares que tentaram trabalhar com boa variedade de chopes não trabalharam o produto direito. Nem é apenas pela falta de câmara fria (que já é falha grave), mas também o atendimento. Bar que serve diversos chopes tem que dar prioridade para eles. Não ajuda nada ter um carta imensa de cervejas em garrafa com preços melhores.

Minha perspectiva pessoal para 2013 é pessimista assim: Muita cerveja importada, pouco chope local.



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Mosto Legal - Jornalistas


O espaço dado às boas cervejas na imprensa brasileira cresceu muito nos últimos dois anos. Se antigamente as notícias sobre o mercado de cerveja costumavam aparecer nos cadernos de economia dos jornais, lentamente o tema tem se deslocado para as editorias de cultura. As editoras também acordaram para o tema: revistas semanais, masculinas, de viagens e de gastronomia passaram a dar atenção para as boas cervejas. Tá certo que a maioria das matérias servem apenas para divulgar novos lançamentos ou ensinar o be-a-bá da cultura cervejeira para quem só sabe a diferença entre cerveja clara e escura. Porém, tenho acompanhado o trabalho de dois jornalistas que têm ido além do lugar comum, garimpando furos sobre o mercado cervejeiro com precisão e conhecimento, aproveitando muito bem o espaço recém conquistado em alguns dos grandes jornais brasileiros. Os textos que eles têm publicado não subestimam o conhecimento do leitor-consumidor, fica claro que eles não guardam sua visão crítica sobre o atual estado do mercado cervejeiro para as conversas à boca pequena, mas fazem com o cuidado exigido pela responsabilidade de escrever para veículos jornalísticos de grande alcance.
Não bastando o envolvimento profissional com o assunto, ambos mantém blogs onde publicam, além de versões não-editadas de suas matérias para os jornais, avaliações de cervejas e outras curiosidades sobre o mercado e a cultura cervejeira.


Quem são eles?


O interesse pelo tema não é nada recente para Roberto Fonseca, já em 2005 ele mantinha um blog sobre latinhas de cerveja, o Latinhas do Bob. No ano seguinte publicou no caderno Paladar do Estadão sua primeira matéria sobre o mercado cervejeiro, fruto de uma viagem por Santa Catarina em busca das micro-cervejarias da região. Com o passar do tempo o interesse dos leitores aumentou e atualmente escreve para o caderno de gastronomia do jornal toda semana, com notícias e avaliações de cervejas. O seu blog, o Blog do B.O.B no site do Estadão, é um dos mais conhecidos entre os aficionados pelas cervejas, pois sempre traz informações em primeira mão, principalmente sobre a cena paulista.




Marcio Beck está nessa há menos tempo, sua primeira matéria sobre o mercado cervejeiro foi publicada em maio de 2011, no Jornal do Commercio. O tema foi a visita do vice-presidente da Brewers' Association, Bob Pease, ao Brasil. Desde então ele já publicou diversas matérias sobre o assunto, sempre com enfoque no desenvolvimento do mercado das boas cervejas. O seu blog, A Volta ao Mundo em 700 Cervejas, segue na mesma linha, e teve como ponto alto a ótima entrevista com o Garrett Oliver, da cervejaria Brooklyn, que antecedeu a recente visita dele ao Brasil.





Antes de escrever esse post, pedi a eles que me ajudassem respondendo algumas perguntas sobre suas carreiras. Inicialmente eu não tinha a intenção de publicá-las, mas eles responderam com tanta boa vontade e cuidado que considerei um desperdício guardar apenas para mim. Nos links abaixo estão publicadas a pequena "entrevista" com ambos jornalistas:

Roberto Fonseca

Marcio Beck 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Para que tantos estilos?

A mais nova belgian dark IPA.
Fonte: http://www.beermaniacs.com.br
Uma boa forma de saber o quanto você é aficionado por cerveja é elencar todos os estilos de cerveja que conhece. Saber o nome de diversos estilos também pode ser ótimo para contar vantagem na mesa do bar e conquistar o distintivo de beerchato. Mas, para além disso, os estilos de cerveja tem uma utilidade bem mais prática. Quanto mais conheço os estilos de cervejas mais fácil fica fazer boas escolhas cervejeiras.

Muitos cervejeiros caseiros, e outros beernerds em geral, adoram promover longos debates sobre as características que definem cada estilo e julgar se cada cerveja se enquadra ou não no estilo proposto.
Eu não me entusiasmo tanto com esses debates. Depois que bebo a cerveja, o estilo a qual ela pertence perde importância.

Na minha cabeça prefiro enquadrar as cervejas em categorias mais simples: amargas, intensas, suaves, refrescantes, etc. Assim agrupo mentalmente as cervejas que já provei. Porém não posso ignorar a qual estilo cada cerveja que provei está enquadrada. Apenas associando as minhas categorias mentais de cervejas aos estilos cervejeiros saberei o que posso encontrar em uma cerveja que ainda não provei.

Para mim, como consumidor, esse é o ponto que realmente importa. Conhecer os estilos me ajuda a escolher o que beber, principalmente a comprar uma cerveja que nunca tomei antes. Quando a cervejaria indica de forma clara em qual estilo sua cerveja se enquadra, ela facilita a minha escolha. A surpresa se resumirá ao quanto boa ou ruim essa cerveja é. Tudo bem que certas características sutis podem estar presentes em alguns exemplares do estilo, mas não em outros, esse tipo de surpresa também pode ser boa. Mas eu não gostaria de encontrar um defumado intenso em uma schwarzbier, nem um azedume na minha IPA. Dentre as variações de aromas e sabores que cada estilo abrange alguma regularidade tem que haver, para que o próprio estilo faça sentido.

Atualmente, com o crescimento do número de consumidores interessados em cervejas para além do universo das "pilsen", o estilo indicado no rótulo pode ajudar muito a vender. Infelizmente muitas cervejarias não se apegam aos padrões existentes para cada estilo. Querem meramente associar seu produto a algum estilo que consideram facilmente vendável. Aí surgem stouts de baixa fermentação, red ales com mais de 8%abv e outras coisa estranhas. E o que dizer das IPAs? Esse é um estilo com tantas variações que já é difícil dizer exatamente o que qualquer IPA terá em comum. Parece que a fórmula do mercado é a seguinte: pegue qualquer ale, jogue um monte de lúpulos americanos e a batize de "qualquer coisa IPA". Deve vender bem, até eu compraria.

Todo mundo já viu esse cartaz, mas continua muito instrutivo.
fonte: Aleheads


terça-feira, 16 de outubro de 2012

A filosofia da sommelier e o dia-a-dia


Depois de ler o novo artigo da Cilene Soarin para o portal "UOL - Comidas e Bebidas" fiquei me perguntando até quando o mercado das boas cervejas, sejam artesanais ou importadas, vai ser pautado pela experiência de degustações didáticas. Não é a primeira vez que leio um artigo associando a ascenção econômica e cultural de jovens bebedores de louras geladas ao interesse por aprender sobre cervejas mais sofisticadas, nem tão loiras e nem tão geladas. Sempre envolve um bar tão sofisticado quanto e um certo procedimento quase científico de ordenar e harmonizar as cervejas, da forma didática para não assustar os novatos. Não sei vocês, mas eu nunca participei de alguma degustação dessas, seja formal, com algum sommelier, ou informal, com amigos. A mudança no meu hábito de consumo foi paulatina, movida pela simples curiosidade de saber a diferença entre as cervejas de sempre e aquelas outras pouco conhecidas que aparecem na prateleira do supermercado.

O hábito de beber cerveja eu já cultivo há mais de 10 anos, é algo que faz parte do meu dia-a-dia, como comer um sanduíche ou assitir a um jogo de futebol. De alguns anos para cá mudaram os rótulos e aumentou a variedade na minha geladeira, mas o hábito nem tanto. Em um dia quente, tomar uma cerveja logo que chego em casa do trabalho. Quando vou cozinhar, abrir cerveja que me acompanhe no fogão e na mesa. Na hora do futebol estar sempre acompanhado de uma cerveja. Em uma coisa eu concordo com a Cilene, a quantidade mudou bastante também. Afinal, para que beber tão rápido se a cerveja é tão mais saborosa que aquelas de antigamente? Tá certo que pelo preço das boas cervejas, é melhor beber devagar mesmo.

O que realmente incomoda neste discurso é que ele reflete a visão que grande parte dos consumidores de São Paulo ainda tem das boas cervejas: um produto diferenciado, para momentos especiais. Nessa lógica a cerveja do dia-a-dia continua sendo uma daquelas aguadas das propagandas de TV. Essa visão também se reflete nos bares da cidade. Já superamos aquela fase onde, para fugir das cervejas populares, só havia os bares e empórios especializados (temáticos?). Até algum tempo atrás, as estrelas dos "temáticos" eram as grandes cervejas importadas de fama mundial. O programa de muitos aficionados era ir ao Melograno ou Empório Alto dos Pinheiros tomar uma Tripel Karmeliet ou Chimay Bleue (sempre na garrafa arrolhada de 750ml), se esbaldar com aquele luxo caro. Lógico que já havia diversas cervejas artesanais brasileiras para serem degustadas, mas elas não tinham o apelo de sofisticação das importadas mais famosas. Evidentemente que poucos podem se dar esse luxo com frequência, então o resto da semana devia acabar sendo regado a Coca ou no máximo umas Heinekens. 

Ainda bem que de uns tempos para cá a situação está melhorando em São Paulo. As boas cervejas estão lentamente se espalhando para além dos bares de nicho. É lógico que não dá para esperar uma seleção interessante de boas cervejas em qualquer bar, mas havendo alguma opção para fugir da lager de milho, é certo que muitos clientes ficarão felizes.

Um passo importante para as boas cervejas se tornarem, de uma vez por todas, um produto de consumo para o dia-a-dia dos apreciadores é uma oferta razoável de cervejas na pressão, ou "chope" para os tradicionalistas. A falta de opções para tomar cerveja na pressão em São Paulo chegou a tal ponto que chope virou uma categoria a parte. Quando entro em algum bar comum e pergunto quais cervejas tem, o chope nem é mencionado, pois é um produto completamente diferente na cabeça do garçom, e provavelmente da maioria dos que trabalham no ramo. Será que eles não sabem que o chope e a cerveja sairam todos do mesmo tanque.

Tenho a impressão que São Paulo ainda perde no quesito bares com variedade de boas cervejas na pressão. Não estão mais bem servidos o Rio de Janeiro (Boteco Colarinho, Delirium Café), Porto Alegre (Biermarkt, Vom Fass), Curitiba (Hop'n'Roll) e Belo Horizonte (CCCP, Empório Serafina)? Os poucos por aqui que já oferecem várias torneiras para os clientes escolherem, ainda incorrem no mesmo erro do passado. Muita cerveja importada na pressão e poucas nacionais. E onde fica o frescor da cerveja de barril, não pasteurizada, depois de viajar 10mil quilômetros? Conheço alguns poucos bares em SP com mais de 3 torneiras de boas cervejas e arrisco dizer que, na soma, dois terços delas estão servindo cervejas importadas. Mas é um começo. Eu sei bem que trabalhar com cerveja na pressão é negócio arriscado. O produto é muito perecível, a clientela quer variedade mas sempre vai ter algum barril encalhado ocupando torneira. Mas com promoções espertas e bom jogo de cintura dá para formar um público cativo que valoriza as cervejas frescas que saem das torneiras. Mesmo que ainda privilegiando as importadas, o Empório Alto dos Pinheiros, com seus 27 bicos, já tem um público fiel às suas torneiras. Para uma cidade como São Paulo ainda é muito pouco, mas quem sabe a gente chega lá. 

Menos afetação, gourmetização, falsa sofisticação e mais bares com boas cervejas (de preferência tiradas na pressão), é querer demais?



Biermarkt Vom Fass - Porto Alegre/RS

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A rede social zitófila




Recentemente um cervejeiro brasileiro dos mais medalhados perguntou no Twitter se valia a pena participar da rede social Untappd. Meu primeiro instinto foi avisá-lo que a participação é gratuita, mas logo percebi que não era esse "vale a pena" a que ele se referia. Provavelmente estava preocupado em não perder tempo com alguma futilidade virtual.

Para quem ainda não conhece, o Untappd é uma pequena rede social sobre cervejas. Ao modo Foursquare, os usuários fazem check-in da cerveja que estão bebendo. O legal do Untappd não é apenas fazer os amigos passarem vontade, mas a possibilidade de comentar sobre as cervejas que está tomando de forma simples e direta. Também ajuda muito na troca de informações sobre onde encontrar determinadas cervejas, os melhores preços, se determinado lote daquela importada já está meio caído, etc.

As cervejarias também podem, de forma gratuita, ter um perfil oficial no Untappd. Com isso elas tem acesso a estatísticas que ajudam a monitorar o padrão de consumo de suas cervejas na rede. É uma ferramenta de marketing de mão beijada, ainda mais porque, como qualquer rede social na internet, os consumidores brasileiros aderiram na maior empolgação e a base de usuários não para de crescer. A participação das cervejarias também ajuda os usuários, pois as cervejarias podem cuidar para que as informações relativas às suas cervejas estejam sempre atualizadas. Além disso, diferente de outras redes sociais, o Untappd abre um canal de diálogo entre produtor e consumidor diretamente focado nas cervejas sem memes ou outras distrações.

Peguei alguns números para ter uma ideia de como a maioria das micro-cervejarias brasileiras estão comendo mosca: as cervejas da Colorado já receberam 2735 check-ins no Untappd, sem que a cervejaria tenha um perfil oficial na rede; a cerveja Wäls Petroleum já recebeu 485 check-ins, sem que a cervejaria tenha um perfil oficial na rede; as cervejas da Bamberg já receberam só este mês 204 check-ins, sem que a cervejaria tenha um perfil oficial na rede.

Por outro lado, algumas cervejarias brasileiras mais atentas já assumiram seus perfis oficiais na rede social zitófila. Quase mil usuários do Untappd já deram check-in em cervejas da Eisenbahn, que tem perfil oficial. Outras cervejarias como Bodebrown, Küd, Nacional e 2Cabeças não perderam tanto tempo e também participam do Untappd. O que falta para as outras?


P.S. - Para quem quiser me adicionar, o perfil é mostocritico.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mas quem lê rótulos?

Eu sempre gostei de ler rótulo de todo produto que consumo, e já aprendi muita coisa. Por que todos os doces de leite do mercado tem que ter aroma de baunilha? Não sei e não me agrada. Com cervejas também aprendi logo que "corante caramelo" não é só para dar cor à cerveja. Alguém entende porque a Bohemia Escura e a Baden Baden 1999 precisam levar caramelo na receita?

Já escrevi bastante sobre as falcatruas na validade de cervejas importadas, mas esse não é o único problema que se encontra nos rótulos. Diversas importadoras desconsideram a importância de informar ao consumidor sobre os ingredientes usados na fabricação da cerveja. Provavelmente, para esses importadores, a exigência do rótulo traduzido é uma mera formalidade, sem qualquer benefício ao consumidor. O consumidor que quiser conhecer os ingredientes de algumas cervejas importadas podera ser induzido ao engano pelo rótulo traduzido. Nem adianta saber ler no idioma do rótulo original, pois a tradução é muitas vezes colada sobre a lista original de ingredientes.




Quem ler apenas o rótulo traduzido da Young's Double Chocolate Stout pode achar que a referência ao chocolate no nome da cerveja é apenas uma sugestão de sabor. Na lista de ingredientes em português não consta nem chocolate nem a essência de chocolate, usados na fabricação da cerveja.
Quem tiver coragem de experimentar a Belzebuth 11,8% pode querer saber como é fabricada aquela bomba. Ela contém aqueles mesmos adjuntos e aditivos presentes nas mais ordinárias cervejas brasileiras, como corante caramelo e conservante. Mas esses ingredientes são ignorados na lista de ingredientes citados no rótulo da importadora.
Na Anderson Valley Winter Solstice, o rótulo frontal logo entrega "ale with natural flavor added". Porém, segundo o selo da importadora, essa cerveja poderia muito bem seguir a lei de pureza alemã. Em português se lê apenas os ingredientes "água, malte, lúpulo e levedura". Cadê o tempero natural?

Não adianta, informação confiável não é o forte das importadoras de cerveja...